19 maio 2006

Orgasmo nas Cataratas


Orgasmo nas Cataratas II

As Cataratas e o rio são a mesma coisa e ao mesmo tempo não o são. É e não é. São a mesma coisa somente quando vista pelos olhos do engano – os olhos de Maya. As Cataratas estão no rio mas não são o rio. O rio desemboca em sua sagrada fenda e nela se transforma. Ao ver o rio, daqui, não é o rio que se vê. Se vê águas. O rio, masculino, abre mão de sua personalidade. Extingue-se. Apaga-se. Entrega-se. Esquece-se.
Neste mergulho o rio não reclama sua soberania. É a fusão do masculino no feminino. É a vitória do princípio feminino, esse da criação. Esse, presente nos ovos. Nos úteros. Nos ninhos. Nos ventres. Nas nuvens cósmicas que parem as estrelas.
Em algum momento, esse encontro místico, sexual organômico extingue as personalidades das Cataratas e do rio. Afinal quem deu-lhes, às Cataratas, esse nome? Eu que momentaneamente me livrei de Maya – a Deusa da Ilusão – olho para o movimento das águas lá embaixo, vejo mil e uma formas, texturas, cores e vidas. Mas tudo o que vejo não tem nome.
Cabeza de Vaca liderou os imbecis que – em sua pressa européia – enxergaram ali "Saltos". Como se a água saltasse e não escorrega-se maliciosa, dengosa, tarada. Outros homens seguiram-no – cegos por Maya – e ali enxergaram Cataratas. Se criam sábios. Mais visão tinham os guaranis. Ao olhar para aquela exuberância de águas; para tanta água que não conseguiam beber e que se fossem beber daria para satisfazer a sede de uma quantidade tão grande de guaranis que eles concluíram que viam uma coisa sem nome. Para bebê-la, deveria haver tantos guaranis que se derramassem pela terra. Por isso a chamavam somente de Y-Guazu – Água Grande.
Hoje os descendentes de Cabeza de Vaca não se dão por satisfeitos. Além de dá-lhes nome, ainda a medem em litros. Em metros cúbicos. Há quem a pese por segundo, por minuto. Mas, aqui livre do feitiço de Maya, entendi. Abracei-me a Água Grande e perguntei-lhe: mãe, como queres que te chame? Por qual nome te conheces?
Fechei os olhos e ouvi seu nome por todos os milhares ou milhões de sensores de minha pele; por todos os ossos de meu esqueleto; através de cada fio de cabelo e pelo de meu corpo. Foi um tremor sonoro. Foi um ruído vibratório. Foi um som escutado por todos os meus órgãos, com a exceção de meus ouvidos.
Tentei transcrever o seu nome em um papel. O papel era pequeno. Meu cérebro não se lembrava de todas as partes. Não havia símbolos para prender e imobilizar os sons, para grafa-los. Era o som de todos os vulcões, de todos os mares, de todas as pororocas. Mil livros não teriam espaço. Quem quiser saber seu nome deve se livrar de Maya, perguntar-lhe a Água Grande e ouvir a reposta.
Sinto-me apenado dos corpos. Tenho-lhes compaixão. Depois de Cabeza de Vaca, o líder dos imbecis, vieram muitos. Ultimamente vem aqueles que se conformam em ser chamados de turistas. São os corpos que vejo ao meu lado. O guia dispara sua metralhadora verbal e conta-lhes mentiras aprendidas de cor. Os litros de água. A descoberta. É maior do mundo. É protegida pelos governos. É um patrimônio da humanidade. É a mais visitada. Etc. Blá-bla-blá e parápapá!
Nada dizem sobre o gozo. Sobre o amor. Sobre o princípio da criação. A relação sexual com o universo e com os visitantes livres de Maya. Nada dizem sobre a negação do rio. O idioma da Natureza que não utiliza alfabetos – porém é feito de milhares de vogais. É uma língua vocálica onde só entram consoantes nas horas traumáticas da criação. É o som do "AUM" do "Alfa " e do "Omega".

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